
Três horas de atraso. Foi isso que eu, Kênia e Gabriel tivemos de enfrentar antes da maratona de shows do Claro Que É Rock no Rio de Janeiro. Não bastasse a espera - decorrente de um problema com o caminhão que trazia o equipamento do Flaming Lips e Sonic Youth -, o lamaçal que tomava conta da Cidade do Rock contribuia para meu mau humor.
Passavam das 18h quando os gauchos do Cachorro Grande começaram a apresentação. Sem maiores surpresas, os caras mandaram muito bem: rock de primeira. Os caras são, na minha opinião, a melhor banda do país. Canções como
Sexperienced,
Que Loucura! e
Hey Amigo, foram providenciais para que minha irritação fosse embora. O encerramento foi perfeito:
Helter Skelter, dos Beatles. Abertura nota 10.
Depois deles foi a vez do Good Charlotte: uma bosta; cocô engarrafado com rótulo de Punk. Antes dos "Punkekas", apresentaram músicas d'Os Cartolas - vencedores do Claro Que É Rock (é uma boa banda, mas não oferece muito). Fui ao Lounge esticar as pernas e jogar conversa fora enquanto a próxima banda não se apresentava.
Chegando lá, a indignação tomava conta: reclamações acerca da escolha do local, do fato dos ingressos estarem sendo vendidos a preço de banana e por aí vai. Um cara que conheci lá falou que boatos disseram que a organização do evento contabilizava os prejuízos: local de difícil acesso, ingressos caros, problemas com as chuvas, dentre outros.
Terminado o show adolescente, subiu no Palco 1 o projeto de Mike Patton (ex-Faith No More): Fantomas. Na verdade, meu olhar estava mais atento ao Palco 2 e arrastei Kênia até lá quando vi Wayne Coyne (Flaming Lips) no palco. O melhor show da noite estava sendo preparado. Voltando ao Fantomas, o som da banda é esquisito demais para mim: colagem de ruídos e gritos guturais, seguidos por guitarras até o talo e um peso descomunal. Odiei, mas a melhor frase da noite foi dita por Patton: "Obrigado e é muito bom estar aqui no Festival Claro Que É Merda". Impagável.
Enquanto isso, estava delirando com a preparação do show do Flaming Lips. Impressionante, para uma banda praticamente desconhecida no país, a maneira como Coyne interagia com o público: "C'mon Everybody. C'mon. Let's Start The Stravaganza". Pedido atendido, teve início o mais espetácular show da minha vida.
Bolha gigante, bolas jogadas ao público, guitarrista vestido de Papai Noel, músicas interativas, confete, serpentina, luvas de pelúcia, teclados infantis e toda uma parafernália saída de um mundo insano, mas divertido. Este foi um pouco do que foi o show dos caras; uma apresentação curta, mas que me trouxe uma alegria tremenda. Algo como uma criança que descobre em um Parque de Diversões um mundo de possibilidades infinitas.
A banda abriu com
Race For The Prize: muito confete e balões lançados ao público que respondeu à altura. A banda emendou com uma interativa
Bohemian Rhapsody, do Queen: perfeita. Enquanto isso, enormes balões foram jogados para o público. Depois, uma das minhas favoritas:
Yoshimi Battles The Pink Robots, do álbum homônimo do grupo - durante a música, Coyne lançou confetes e serpentina sobre o público, além de utilizar uma marionete de uma freira como ajuda para a conclusão da canção. Novamente conclamou o público à extravagância.
Em seguida, ajudado por um "tecladinho" infantil - daqueles que vem com sons sintetizados de animais -, Coyne fez uma espécia de desafio ao guitarrista. Depois, veio uma das minhas favoritas:
She Don't Use Jelly, do disco Transmissions From The Sattelite Heart. Em seguida foi a vez da minha favorita:
Do You Realize?, do álbum Yoshimi Battles The Pink Robots. Pela primeira vez em minha vida, em um show de Rock, confesso, senti lágrimas escorrendo pelo meu rosto: era uma sensação única de satisfação.
O Flaming Lips encerrou sua curta apresentação com uma versão arrasadora de War Pigs, do Black Sabbath. Foi um dos muitos momentos em que as bandas demonstraram sua indignação com o Presidente dos EUA, George W. Bush. O Lips fez um show "pocket" literalmente, mas, no final, foi impressionante.
Em seguida... bem, alguém podia ter me beliscado, mas não: era Iggy Pop And The Stooges que estava no palco. Teve
1969,
1970,
Funhouse,
Down On The Street,
Dirt,
I Wanna Be Your Dog... foram praticamente os dois primeiros e essenciais discos dos Stooges executados quase que na integra. Iggy é um espetáculo à parte: pula, gesticula, grita, esperneia, joga-se sobre o público. Em
TV Eye, do álbum Funhouse, Iggy jogou-se no chão; em
No Fun, chamou o público para cima do palco - até o Cachorro Grande entrou na "Grande Farra" em que se transformou o show de "Mr. Pop".
A noite já estava ganha, mas, ainda havia dois petardos: Sonic Youth e Nine Inch Nails. O primeiro sempre figurou como um dos meus favoritos. O Sonic Youth fez um show composto por poucas músicas, mas com muita experimentação. Foram cinco músicas. As duas primeiras tiradas do recente Sonic Nurse - não sei o nome delas, mas posso dizer que foi a sensação de encontrar um velho amigo que tomou conta de mim.
Skip Tracer, do Washing Machine, foi cantada por Lee Ranaldo. Dois clássicos fechariam a apresentação:
White Cross e
Expressway to Yr. Skull. A primeira, em uma versão quilométrica; a segunda, outra canção empregada como protesto contra Bush, encerrou a participação do Sonic Youth no Claro Que É Rock com uma coda devastadora.
Coda. Devastador. Nine Inch Nails e sua estrutura musical de 25 toneladas encerraria com maestria o festival. Todos os clássicos da banda estavam lá:
Burn, da trilha de Assassinos por Natureza,
March of The Pigs, do álbum The Downward Spiral, dentre outras. Apesar de privilegiar canções do disco mais recente, With Teeth, a banda-de-um homem-só-que-atende-pela-sigla-NiN chamada Trent Reznor, diversificou muito bem o set. Por exemplo:
Terrible Lie, do disco Pretty Hate Machine foi um dos pontos altos;
Closer, do já citado The Downward Spiral, e da também já citada
Burn, do EP Broken, ganharam destaques. As canções
You Know What You Are?,
The Collector e
The Hand That Feeds fizeram a alegria daqueles que permaneceram na Cidade do Rock até às 3h da matina.
Missão cumprida, tomei o rumo de casa, sabendo que o que ficara gravado na minha retina não tinha preço. Ainda estou assobiando
Do You Realize? e vendo a cara de satisfação de Wayne Coyne. Acredito que a felicidade nos faz chorar, sim...