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26 Abril 2005
Pet Ex-Machina


Digamos que ainda estou em choque. Posso ter terminado de ler a melhor história em quadrinhos em anos. WE3, de Grant Morrison e Frank Quitely (a dupla que estraçalhou com os X-Men), é um deleite; quadrinhos avant-garde, sem dúvida.
O roteiro, a cargo de Morrison, é um chute no traseiro. O mote da mini-série em três edições é o seguinte: o governo americano decide testar suas mais modernas armas de guerra. As três, para ser mais exato, são animais domésticos genetica e mecanicamente alterados transformados em máquinas de matar.
Imagine aquele animal de estimação da sua avó. Veja-o como um genocida ciborgue programado para matar. Pois bem, Grant Morrison transpôs isto para os quadrinhos. Digamos que, no final, temos um cruzamento entre o Exterminador do Futuro e a Pet Shop mais próxima da sua casa.
No quesito arte, todo o louvor para Frank Quitely. Alguém tem alguma dúvida de que o homem é Deus? Por enquanto, ao menos para mim, é um dos totens sagrados dos quadrinhos. O detalhismo do cidadão atribui a WE3 mais substância; algumas seqüências criadas por Quitely são de tirar o fôlego, tamanha a perfeição do traço. Fiquei pasmo com alguns dos trabalhos de Quitely para The Authority, mas, em WE3, parece que ele deciciu gastar mais tinhta nos pincéis - ou "arregaçar" nos pixels de seu MAC.
Pena que WE3 demorará um pouco para chegar ao Brasil, mas, com muita "reza braba" talvez possamos conferir este já clássico.
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Alexandre[17:42]

21 Abril 2005
Planeta Morrison


Grant Morrison é um roteirista de quadrinhos fodido. A sentença ao lado reflete minha satisfação diante do que este britânico fez nos últimos anos com os quadrinhos dos X-Men. O último arco do cara junto à revista - Planeta X, publicado na edição deste mês dos heróis - é puro delírio. Morrison tem em seu currículo um histórico de revoluções; costuma deixar de pernas pro ar os heróis onde mete a mão.
Foi assim com Homem-Animal, Liga da Justiça, dentre outros tantos. Com os X-Men não foi diferente. O grupo foi durante anos prejudicado pela falta de um roteirista que pudesse colocar "ordem na casa' e, mais que isso, atribuísse um novo sabor às aventuras. Grant Morrison não mediu a mão. Como ele afirmou em uma edição especial, nos preparativos do arco E de Extinção, a idéia seria sacudir o universo mutante com uma sucessão de sagas para descolar o queixo.
Com a última edição, meu queixo definitivamente despencou. O levante mutante; Magneto Junkie; Magneto decapitado por Wolverine; tudo foi demais da conta. Para quem acompanha - ou acompanhou - a publicação Os Invisíveis sabe que Grant Morrison não costuma medir seus esforços para criar aventuras realmente pungentes.

Fazia muito tempo que não tinha qualquer saco para as aventuras do X-Men e foi Morrison quem conseguiu desviar minha atenção mais uma vez para os mutantes. Lembro que a última fase dos heróis que acompanhei de perto foi aquela tida como a mais popular - Chris Claremont e Jim Lee -, mas que não chega perto da atual que se encerra.
Grant Morrison atualmente está preparando suas armas para a DC Comics e uma possível reformulação que pretende fazer junto à Liga da Justiça. Não bastasse isso, o cara vem sacudindo o mundo dos quadrinhos lá fora com WE3 - uma mini-série que conta o que acontece quando o governo norte-americano transforma um coelhinho, um cachorrinho e um gatinho (no diminutivo mesmo) em máquinas de matar a serviço do exército.
Em suma, uma loucura. Na verdade, se no Arkham existisse uma ala para os roteiristas de quadrinho insanos, Grant Morrison estaria lá. Ao lado dele, Steve Dillon, Warren Ellis, Kurt Busiek, Alan Moore....

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Alexandre[19:52]

17 Abril 2005
Sobre o APR 2005...
Senhoras e senhores, alma lavada e muita diversão. O show do Placebo correspondeu todas as minhas expectativas - que não eram poucas. Brian Molko e Cia. promoveram um dos melhores shows que vi na vida - perde pro do Jon Spencer, por motivos óbvios.
A noite de sexta-feira (15/04) foi divertidíssima desde seu início, já que quase perdíamos - eu, Kênia, Denise e Gabriel - a apresentação do Bugs. Chegamos na metade da primeira música, mas acompanhamos o show.
Não preciso dizer que os caras são, desde já, a melhor banda já nascida em terras potiguares. A qualidade da banda fez-se presente na apresentação. Foram ótimos minutos do melhor rock'n'roll em uma estrutura de fazer inveja. Denilton, Paolo e Joab estão de parabéns pelo show.
Depois foi a vez de uma banda do Pará que não me interessou nada. Pop-Rock insosso. Dei um rolé e conferi a feira. Na seqüência foi a vez do Star 61, da Paraíba. Certamente você lerá por aí cobras e lagartos sobre o show dos caras mas, no final, graças a empatia criada junto ao público, fizeram um ótima apresentação.
Los Hermanos, bem, foi a banda da seqüência. Confesso que estou de saco cheio de Marcelo Camelo e banda. Não sei o que acontece, mas, com o tempo, deixei de curtir o som dos caras. Não totalmente, diga-se de passagem, mas não tenho o mesmo feeling para escutá-los. Um show mais ou menos. Nada de mais.
De volta ao Claro que É Rock, foi a vez do Zefirina Bomba. Acho que a estada em São Paulo está fazendo mal pros caras: a apresentação soou forçada e sem muita substância. Os paraibanos fizeram um bom som, mas não convenceram.
A última banda da noite foi a coisa mais chata que ouvi na face desta terra: Rádio de Outono. Imagine que, em um belo dia de chuva, alguém teve a idéia de cruzar João Gilberto (que detesto) com Phil Spector (que adoro). Pois bem, o resultado é algo inominável. Abominável pra dizer a verdade. Fiquei tão puto que decidi gastar alguns reais comprando discos e camisetas. Somente voltei depois da banda deixar o palco. Sebosa apresentação.
Bem, o fim da noite ficou com Brian Molko. Inebriante. O termo mais adequado para definir a apresentação dos caras é este. Todas as canções que gosto estavam lá - até uma versão "tranqüila" de 36 Degrees. Um show que dificilmente deixará minha retina. Cantei todas as músicas, do início ao fim. No mais, voltei pra Olinda feliz da vida. Um sorriso de satisfação ficou escondido no meu rosto durante toda a noite.
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Alexandre[17:30]

10 Abril 2005
Três senhores ilustres...


- De mim você quer saber o caminho?
- Sim - eu disse -, uma vez que eu
mesmo não posso encontrá-lo.
- Desista, desista - disse ele e virou-se com um grande ímpeto,
como as pessoas que querem estar a sós com o seu riso
Franz Kafka

Bukowski, Céline e Dostoievski. Estes três senhores representam a tríade absoluta do melhor que a literatura pessimista já produziu. Alguns poderão até discordar, mas, ao menos para mim, não há muito para discutir. Cada um a sua maneira conseguiu apontar um caminho interessante e, mediante reflexões não muito "tradicionais" cunharam que o melhor da humanidade... bem, o melhor ainda não veio.
Foi com Memórias do Subsolo que comecei a ler Dostoievski com maior atenção - ainda não li Crime e Castigo, mas farei isso muito em breve. Logo nas primeiras linhas, fui fisgado. No jornalismo, as primeiras linhas são essenciais; o golpe capaz de nocautear o leitor deve estar ali. Dostoievski sabia muito bem disso: todos os seus livros detém esta particularidade: fisgam o leitor no primeiro parágrafo.
Costumo definir Memórias do Subsolo como o supra-sumo da literatura de mau humor em formação; uma preparação necessária. Juntamente com Kafka, Dostoievski apresenta em Memórias o ser humano desnudado; um refém incapacitado pelo mundo que o cerca. No entanto, um refém puto da vida e que espalha sua amargura contra os idealistas - uma praga que vinga até nossos dias.
O caminho por Céline foi o mais atribulado. Dono de um discurso cáustico, o escritor francês foi responsável pelas algumas melhores horas de leituras que tive em minha vida. Descobri a literatura de Louis Ferdinand Céline através do velho safado Charles Bukowski. "O melhor escritor em 2000 anos", costumava afirmar o poeta e contista norte-americano (na verdade, alemão de nascença).
Impossível não sentir a semelhança entre os dois: ambos detém uma boa porção da minha alma de leitor. Céline é corrosivo; Bukowski demolidor. Um retrato amarelado de criador e criatura. O primeiro contato com Céline aconteceu com Morte a Crédito, tido como um romance memorialista do autor. Na verdade, meu objetivo era conferir o principal clássico do autor: Viagem ao Fim da Noite. Depois de quase quatro anos de espera, finalmente consegui lê-lo e, para minha satisfação, tem sido um ótima leitura; tudo o que sempre senti sobre o todo que me cerca está lá - sem tirar ou colocar linhas.
Com Bukowski, no entanto, a iniciação deu-se com suas Notas de Um Velho Safado. Na verdade, devo ao escritor toda a atenção dedicada à literatura "sem papas na língua". Dentre todos os escritores que li, é justamente para ele que dediquei boa parte de minha atenção - seja por sua "orientação", ao indicar bons livros e escritores; seja por simplesmente achá-lo um dos melhores de seu tempo. Para iniciar, basta uma leitura de Crônica de Um Amor Louco: imbatível.
Kafka, bem... Kafka é outra história. Mas a citação acima ilustra bem a proximidade que este mantém dos três. Quatro heróis do pessimismo; quatro almas que sabiam a verdade.
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Alexandre[20:36]

04 Abril 2005
Hábitos Perigosos


Muito tempo depois de safar-se diante do demônio Nergal e de colocar o feiticeiro Papa Meia-Noite em seu devido lugar - fodido, mas com uma puta cobertura em Nova York -, John Constantine vê-se diante de um desafio ainda mais perigoso: um câncer que corrói suas entranhas e a ansiedade das hostes infernais por sua alma. Este é o mote de Hábitos Perigosos, HQ da linha DC Vertigo que serviu de base para o filme Constantine. Um grande arco, diga-se de passagem.
O grande porém é que a série - publicada no Brasil na extinta revista Vertigo, da Editora Abril - mostra um Constantine em "estado de graça" (se isto é realmente possível no caso do personagem). A publicação inaugurava no Brasil a melhor fase do personagem, quando seus roteiros ficaram a cargo do tarimbado Garth Ennis. Não à toa, o arco é considerado um dos melhores do ocultista e, por isso, uma leitura indispensável. Vale lembrar que a série ganhou uma boa reedição lá fora, condizente com sua importância.
Hábitos flagra John Constantine descendo ladeira abaixo: logo no início da história observamos ele "livrando-se" de alguns pedaços seus em uma pia. O Câncer - decorrente do uso contínuo de Silk Cut (marca de cigarros preferida de John) - tomou conta de boa parte do corpo do ocultista e, após uma visita a um especialista descobre que, sem cerimônias, não falta muito para sua morte.
Voltando para casa, Constantine encontra um outro amigo ocultista que, como ele, está com os dias contados. Na casa deste amigo, depois de um porre homérico (graças a habilidade que o colega detém de transmutar água benta em vinhos de primeiríssima linhagem), John é surpreendido com a visita do terceiro dos Caídos. O demônio vem reclamar a alma do colega de Constantine, mas, diante das artimanhas do herói, é ludibriado e termina por selar um pacto pela alma dele tomando um bom gole d'água benta e jogado em um poço com o material sagrado.
Depois de assegurar a passagem do amigo para o descanso eterno e vendo que sua situação não é das melhores, Constantine retorna para casa e tenta resignar-se quanto ao seu destino.
Ao receber a visita do segundo dos Caídos, em seus instantes finais, o mago consegue uma nova vitória e, mais uma vez, sacaneia um dos líderes das hostes infernais. Faltando apenas o primeiro dos Caídos, que vem reclamar a alma do ocultista, John consegue driblá-lo e obter o que parecia impossível: uma aparente imortalidade - já que um embate entre os três Caídos resultaria na aparente destruição do Inferno. Dessa forma Constantine é curado do câncer que o devastava e com o gesto bastante peculiar seu manda os Caídos às favas.
O engraçado é que em Constantine, os produtores buscaram aproximar o personagem da mitologia de Milton, em que as hostes infernais são lideradas por Lúcifer. Nos quadrinhos, diferente das telas, o Primeiro dos Caídos estava "lá" aguardando a queda do "mais belo dos anjos". Portanto, o Inferno já possuía um líder.
Em suma, juntamente com Pecados Originais - este lançado no Brasil recentemente -, Hábitos Perigosos é uma ótima introdução à mitologia do mago John Constantine. A criação de Alan Moore, Steve Bissete e John Tottleben é diversão garantida, a não ser que você seja um completo idiota e torça o nariz para as maravilhas proporcionadas pelos mestres da arte seqüencial.
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Alexandre[16:48]