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31 Março 2005
O fim de Preacher, finalmente...


Bem, se não terminou de ler o clássico absoluto de Garth Ennis e Steve Dillon, Preacher, acho bom parar por aqui. Terminei - graças a um acaso celestial - a série completa do roteirista de quadrinhos mais insano da face da terra. Não bastasse ter criado os personagens mais improváveis, Ennis encerrou - pasmem, em 2000 - aquela que periga tornar-se uma das melhores histórias em quadrinhos para adultos de todos os tempos.
Pra quem ainda não teve a oportunidade de ler a série, Preacher conta a saga de Jesse Custer, um pregador do Texas que, em um belo dia, durante um sermão, vê-se possuido por uma entidade de nome Genesis. A "criatura" que incorpora o pregador que dá título à série foi fruto de uma "relação" entre um arcanjo e uma sucubo. Dá pra sentir que o caldo entorna por aí.
O barato desta entidade é que ela, além de detonar uma igreja lotada de caipiras texanos, presenteia Custer com "A Palavra de Deus". Para ter-se uma idéia da responsabilidade que a entidade enseja, em determinado momento dos quadrinhos Custer ordena que um vilão morra e o cara cai duro.
O problema é que, logo na abertura da série, depois de um embate com o Santo dos Assassinos - um caubói criado por Ennis que desceu ao Inferno, matou o Diabo e voltou para tornar-se um "soldado" do céu -, Jesse Custer descobre que Deus, o dito cujo, não habita mais o paraiso; fugiu, tirou férias e não voltou mais.
Decidido a descobrir a verdade, juntamente com a "ladykiller" Tulipa e o vampiro irlandês Cassidy, Jesse inicia sua busca - nem que para isso tivesse que chutar o rabo do criador de volta ao trono. É mais ou menos isto que acontece até o volume 66 - edição americana - da série, tudo regado com a mais pura bizarrice. Bukowski ficaria corado com algumas situações criadas por Ennis para seu personagem
Por sua vez, o criador de Preacher deixou para o encerramento o melhor da festa. A saga O Alamo, que fecha a trama, traz de volta Herr Starr e sua trupe. O grupo que atazanou a vida do personagem durante toda sua busca, volta decidido a resolver o problema "Jesse Custer" de uma vez por todas. Deus, também preocupado com a situação, decide retornar ao paraiso. O que ele encontra? O Santo dos Assassinos louco por explicações sobre a morte de sua família.
Daí, é um Deus por ninguém e todos que se "lasquem": o fecho de Preacher é impecável - até a piegas cena em que o casal Custer-Tulipa despede-se é bacana. No entanto, melhor que qualquer diálogo, é o racha entre o Santos dos Assassinos e o Criador. Digamos que, sem meandros, o Santo bota pra foder no Criador.
A parte ruim é que o número final de Preacher não chegou por aqui. Somente o importado. Corra e procure o seu.
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Alexandre[18:42]

24 Março 2005
Pamonhas
Aristides. Um bom cara, pena que o ofício dele não era lá dos melhores. Vendia pamonhas. Gostava da coisa, até. Pena que vender pamonha fosse uma tarefa inglória: ficar à beira do fogo, embalando aquelas "coisinhas" e esperar aqueles que gostavam do produto.
Lembro que Ari - como chamava-o - tinha o maior apreço pelas pamonhas que vendia. Confessou-me, no entanto, certa vez, que o mais difícil é tentar convencer as pessoas quanto ao sabor do produto. Dizer-lhes o quanto elas eram "deliciosas" era uma tarefa complexa: segundo ele, o pacote que as envolvia era o grande barato; o "troca-pé" ilusionista.
Enganar os olhos e atacar o estômago. O problema, de acordo com Aristides, eram as "pamonhazinhas". Aquelas que, por falta de substância, encalhavam na sua banquina na Avenida Bernardo Vieira. Por mais que tentasse, sempre ao final do dia tinha que recolhê-las, baixar a cabeça ao chegar em casa e atirá-las ao lixo.
Por mais que tentasse, sempre, quando preparava suas pamonhas, uma pequenininha ficava agarrada às demais pamonhas. Quando chegava à banca estava lá a miserável. Não bastasse ter que vender pamonhas, tinha que voltar sempre com a invendável "pamonhazinha".
Aristides, depois de algum tempo, desistiu das pamonhas. Sabe como é, encheu o saco. Hoje, depois de três anos vendendo pamonhas, decidiu: nunca mais. "Cansei de jogar pequenas pamonhas no lixo e ver pessoas inteligentes engolindo pamonhas pela embalagem", afirmou.
Pamonhas e pamonhazinhas. As últimas pro lixo; as primeiras, engolidas pela multidão.
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Alexandre[16:05]

17 Março 2005
Então terminei "Os Demônios"...

Os Demônios
Fiódor Dostoiévski

Depois de uma temporada agarrado com o livro, finalmente conclui a leitura de Os Demônios, do velho Dostô. Digamos que ele meu queixo está na cintura com o desfexo. Ao final, não sobram mocinhos: os bandidos estão por todo o lugar e a culpa é a grande juíza. Posso dizer que fiquei admirado com a antecipação que Dostoiévski faz, com Kirilov, do Zaratustra de Niezstche.
Agora é pra lascar o que Dostô faz com o personagem Nicolai Stavroguín: durante boa parte do livro temos um incompreendido, mas, nos capítulos finais, o moço mostra a substância da qual é realmente feito. Impressiona também a dimensão da narrativa: um retrato psicológico primoroso acerca dos rumos de seu tempo. O totalitarismo - ou sua vertente mais à esquerda (o niilismo que adoro) - analisado de modo cru.
Confesso ter ficado preocupado com a primeira parte do romance: um tijolo no qual Dostoiévski apresenta todo o circulo em formação antes da destruição que se seguirá; idéias, conflitos e fraquezas são apresentadas como que ao ouvido do leitor para que este mantenha o olhar atento e saiba que "nem tudo é como parece".
Os demônios que o autor apresenta escondem-se no íntimo do espírito humano; provoca-o e leva-o para a beira do precipício: pular, no entanto, fica com cada um. É este o mote, ao meu ver, de Os Demônios: ao final, apesar da vilania, a escolha permanece junto ao espírito humano. Leia o livro e tire suas conclusões.
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Alexandre[16:43]

06 Março 2005
Como estou preocupado com a estréia de Constantine...
É verdade, estou muito preocupado. Talvez ele, John Constantine, seja um dos personagens que mais admiro nos quadrinhos - seja pela temática; seja pela maneira como alguns autores do gênero o representeram durante os últimos vinte anos. Quando surgiram os primeiros boatos de que os estúdios Warner pretendiam rodar um filme com o personagem, um misto de alegria e preocupação passou a circular ao meu redor.
Alegria, pois veria na grande tela um dos meus personagens favoritos das HQs; preocupação, pois, dependendo do roteiro, a coisa poderia descambar para um arremedo de quinta categoria. Posso confessar agora - como o título desse texto deixa claro - que a preocupação vem superando a alegria. Desde que vi o primeiro trailer e Constantine (interpretado não sei por que cargas d'água por Keanu Reeves) carregando uma "pistola-crucifixo", meu pé foi se movendo para trás.
John Constantine, teve sua primeira aparição revista Swamp Thing # 37 como personagem coadjuvante. Steve Bissette e John Totleben questionaram certa vez se não poderiam, por serem fãs de Sting, colocá-lo em algum lugar da história em que trabalhavam. Depois de muita conversa, Alan Moore (Watchmen) e os dois terminaram por criar o personagem. Desde então, o personagem ganhou título próprio e tornou-se (para não me alongar mais) um dos mais cultuados dos fãs de HQs.
Nos últimos anos alguns acertos e poucos erros pontuaram a transposição de personagens das HQs para o cinema. Com a expectativa de que unanimidades como Watchmen, Preacher e V de Vingança ganhem suas versões cinematográficas, espero que a mão dos diretores não caiam no quesito qualidade. Espero, não tendo assistido ainda ao filme, que Constantine não faça com que me arrependa de ir ao cinema.
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Alexandre[20:20]