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29 Novembro 2004
Amanhã, outro dia...
- E então? Como vai ser?
Aquela "vozinha" irritante sussurra no meu ouvido. Na verdade não sei bem o que diabos essa consciência quer. Talvez esteja questionando o que diabos tenho pra fazer dessa "vidinha" inútil que levo. Funcionário Público, fadado à mesmice, pensando-se alguém, mas nada além de um inútil. Antes que me esqueça, meu nome é Amaral; Amaral de Oliveira Júnior: o nome de papai acrescido dessa terminologia que nos inferioriza.
Desde que me tornei funcionário público de uma repartição federal - não vem ao caso dizer qual, pois tenho medo de retaliações - que cuida de absolutamente porra nenhuma, minha vida tornou-se essa mesmice: conviver com inúteis geralmente dá nisso. Próximo à merda, o que fede é a própria ou foi sujo por ela. Dessa maneira fui contaminado.
- Vai continuar na merda?
É, com um salário que me garante algum conforto, família imersa na mesmice e eu beirando os sessenta, não há muito o que fazer. Fico aqui pensando besteiras, sonhando com o que poderia ter feito e vendo que aquilo que fiz não serve para absolutamente nada. Nada. Engraçado como o desespero nos surpreende quando percebemos que todo o esforço resulta em absolutamente nada.
- Dá um jeito nisso, porra!
Daqui do alto tudo parece mais calmo. Resolvido, até. No entanto, enquanto as pessoas se reunem lá embaixo, como formigas esperando um grãozinho de açucar que escapa da colher que adoçica o café, fico avaliando como tudo pode ser resolvido apenas com um salto. Um pulinho e pronto: tudo termina. O grande barato é que daqui de cima não dá pra escutar nada. Alguém que certamente estará gritando: "pula, veado!" ou "termina com essa porra, merda!" e ainda "filho da puta, tenho hora!".
- Vai ou não vai, escroto?
Acho que deve ter muita gente agora. Bem, vamos lá. No parapeito, preparo o peito, escarro o suficiente, junto tudo na boca e...

Meia hora depois...
- Um filho da puta, Oliveira.
- Que nada.
- Oliveira, o sacana esperou todo mundo se aglomerar lá embaixo e, lá do alto, deu uma bruta cusparada na cara daquele rapaz. Que cara mais escroto.
- Que nada, eu curti. Teria feito o mesmo. Que bando de inúteis.
- E, depois disso, ainda fica rindo.
- Deixa, Arnaldo. O cara vai ter muito o que explicar na delegacia.

Amaral só conseguia ver uma imagem: uma lápide na qual se lia, em letras garrafais, a palavra "Consciência". Impossível segurar o sorriso.

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Alexandre[08:43]

24 Novembro 2004
À crítica
Costumo dizer aos amigos - e somente a eles - que fazer uma crítica acerca de qualquer obra de expressão, em Natal, equivale a um bom tiro no pé. Os artistas locais, com raras exceções, não aceitam muito bem a crítica mais, digamos, contundente. Não os censuro, mas acho que, pelo menos cá por estas plagas, creio que como resquício eterno da província, todos os referidos cultivam aquele interessante flerte com a autoridade.
Afinal, artistas são autoridades. Ao menos quando têm suas obras colocadas em xeque. Músicos, artistas plásticos, diretores, produtores, escritores e toda a fauna de enfants terribles alucinam quando alguém afirma que aquilo por eles produzido tem tanta relevância quanto um episódio dos Teletubbies.
Crítica camarada é release. O crítico não vê no artista, na minha opinião, um amigo, mas um produtor de algo que precisa, como todas as obras, de uma análise. Algo que, como em muitos ramos do conhecimento, contribui para o estabelecimento de uma distinção entre o relevante, o comum ou, em última análise, o irrelevante.
Em Natal, pelo menos é o que percebo, sob a desculpa de que "as expressões artísticas têm que crescer" e não se pode criticá-las de maneira tão objetiva, o cerceamento da análise corre frouxa. Não raro, artistas e produtores insatisfeitos partem para o ataque - da mãe pra baixo, vale tudo - contribuindo para o que reafirmo: "criticar a obra de qualquer artista em Natal é, antes de tudo, uma profissão de fé".
Acredito muito que a função do crítico é "distinguir e separar a borra do ouro"; o que importa do meramente descartável. E, sinceramente, o que tenho lido, apreciado e escutado em Natal não se distancia muito disso.
Viva à crítica; danem-se o pieguismo e a arte-release praticada cá por estas paragens.
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Alexandre[10:13]

12 Novembro 2004
Abu Amar...
Sinceramente gostaria de saber quais pensamentos passaram pelas cabeças dos milhares de palestinos que, hoje, se despediram de Yasser Arafat. Talvez, aqueles que dele se despediram hoje somente tivessem uma palavra em suas cabeças: gratidão.
Quem seria capaz de censurar o anseio deste senhor? Talvez, os métodos; a motivação, nunca. A história é deveras engraçada: o devido respeito, somente virão após alguns anos de reflexão. Entre os tantos heróis e vilões da história humana, podemos dizer que Arafat está agora entre os que integram a incógnita; aqueles controversos que trazem para si ódio e admiração.
As ações de Arafat - e dos que compartilhavam do mesmo anseio - demonstraram o quão longe a desesperança e a revolta podem nos levar. No final, depois de toda a sua força e luta, impossível não dizer que nós, sim, somos um pouco palestinos. Os esquecidos e que esperam o resgate de sua glória. Sim, somos palestinos e sabemos que, no final, quando todas as alternativas se esgotam, somente a revolta é capaz de lavar nossa alma.
Vá em Paz, Arafat, pois o ramo de oliveira ainda não caiu. Um dia o delírio terá fim e, neste, você terá o descanso dos heróis.
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Alexandre[19:37]