- E então? Como vai ser?
Aquela "vozinha" irritante sussurra no meu ouvido. Na verdade não sei bem o que diabos essa consciência quer. Talvez esteja questionando o que diabos tenho pra fazer dessa "vidinha" inútil que levo. Funcionário Público, fadado à mesmice, pensando-se alguém, mas nada além de um inútil. Antes que me esqueça, meu nome é Amaral; Amaral de Oliveira Júnior: o nome de papai acrescido dessa terminologia que nos inferioriza.
Desde que me tornei funcionário público de uma repartição federal - não vem ao caso dizer qual, pois tenho medo de retaliações - que cuida de absolutamente porra nenhuma, minha vida tornou-se essa mesmice: conviver com inúteis geralmente dá nisso. Próximo à merda, o que fede é a própria ou foi sujo por ela. Dessa maneira fui contaminado.
- Vai continuar na merda?
É, com um salário que me garante algum conforto, família imersa na mesmice e eu beirando os sessenta, não há muito o que fazer. Fico aqui pensando besteiras, sonhando com o que poderia ter feito e vendo que aquilo que fiz não serve para absolutamente nada. Nada. Engraçado como o desespero nos surpreende quando percebemos que todo o esforço resulta em absolutamente nada.
- Dá um jeito nisso, porra!
Daqui do alto tudo parece mais calmo. Resolvido, até. No entanto, enquanto as pessoas se reunem lá embaixo, como formigas esperando um grãozinho de açucar que escapa da colher que adoçica o café, fico avaliando como tudo pode ser resolvido apenas com um salto. Um pulinho e pronto: tudo termina. O grande barato é que daqui de cima não dá pra escutar nada. Alguém que certamente estará gritando: "pula, veado!" ou "termina com essa porra, merda!" e ainda "filho da puta, tenho hora!".
- Vai ou não vai, escroto?
Acho que deve ter muita gente agora. Bem, vamos lá. No parapeito, preparo o peito, escarro o suficiente, junto tudo na boca e...
Meia hora depois...
- Um filho da puta, Oliveira.
- Que nada.
- Oliveira, o sacana esperou todo mundo se aglomerar lá embaixo e, lá do alto, deu uma bruta cusparada na cara daquele rapaz. Que cara mais escroto.
- Que nada, eu curti. Teria feito o mesmo. Que bando de inúteis.
- E, depois disso, ainda fica rindo.
- Deixa, Arnaldo. O cara vai ter muito o que explicar na delegacia.
Amaral só conseguia ver uma imagem: uma lápide na qual se lia, em letras garrafais, a palavra "Consciência". Impossível segurar o sorriso.