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25 Outubro 2004
Um livro sobre os sem-nome
Quando comecei a ler "O Segredo de Joe Gould", do jornalista norte-americano Joseph Mitchell, não sabia que estava diante de uma boa parte daquilo que chamo de "alma de repórter". Aquela matéria que faz com que nós, repórteres, sejamos diferentes dos demais profissionais que estão por aí.
Para os que leram o livro, recentemente lançado pela Companhia das Letras, ele torna-se rapidamente uma injeção intravenosa de auto-estima; uma justificativa para todas as horas que "desperdiçamos" frente a computadores e pessoas.
Para os que não conhecem o livro, ele nada mais é que um volume com dois perfis escritos por Joseph Mitchell para a "Meca" do jornalismo com vergonha na cara: a revista New Yorker, berço do "new journalism" (assim mesmo, em inglês).
O personagem que ilustra estes dois ensaios é um certo Joe Gould, um tipo boêmio-esquisito que vagam por nossas cidades e que, sem a devida atenção, passam por nossas vidas sem que os vejamos. No primeiro ensaio - o livro tem dois -, feito em 1942, introduzia um certo "Professor Gaivota" e sua "História Oral de Nosso Tempo". Gould fora um paria; um dos sem-nomes da multidão que chamou a atenção de um repórter para sua história. Quando publicado, o ensaio foi um sucesso; não para menos, um dos melhores perfis já feitos - observem: um perfil de um Zé Ninguém.
Em 1964, vinte e dois anos depois do primeiro ensaio, Joseph Mitchell retoma seu personagem de uma Nova York que ficara para trás - poderia ser São Paulo, Londres, Los Angeles, Amsterdam ou qualquer outra cidade propensa a tipos estranhos. Neste novo texto, Mitchel disseca o segredo deste personagem e tudo o que este senhor fizera enquanto perambulava pelas ruas da megalópole que o acolhera.
Não vou contar qual segredo estava por trás de Gould, mas o que importa é que Joseph Mitchell nos demonstra que fazer jornalismo é importar-se. Em nossos dias, mais que ver os que anseiam pelos holofotes, os que por detrás destes se escondem têm, na maioria das vezes, uma história capaz de preencher páginas e páginas de um jornal.
Mitchell, para ter-se uma idéia, após publicar o segundo ensaio sobre Gould, deixou a escrita. Após falar sobre aquele estranho na multidão, decidiu que nada mais precisaria ser feito. Não sei - e sequer faço questão em saber - o que diabos passou pela cabeça deste jornalista, mas sei que tomar uma decisão como esta não é para poucos. Compre ou peça emprestado este livro. Já escutei que algumas músicas são capazes de salvar nossa alma; este livro salvou minha alma de repórter.
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Alexandre[09:40]

16 Outubro 2004
Walking, Just Walking on The Fucking Wild Side
Alguém acaba de trocar o CD. Mais uma vez, como outras doze, poem Ramones na roda. Legal, gosto, mas com data de validade: "ao passar dos quinze, procure por outra coisa", poderiam colocar um adesivo com a inscrição. Gostei e continuo a gostar dos caras, mesmo a maioria já tendo partido desta para melhor.
A festa na casa do Arnaldo vinha a mil e, agora, parece que uma hecatombe abateu todos na sala. Pelo menos uns quatro devem estar debaixo da mesa de centro. Outro, altos feito a Eifel, esperam recuperar o folego para "reiniciar os trabalhos". A coleção de discos de Arnaldo é uma maravilha. Depois dos primeiros vinte minutos de "Teenage Lobotomy" e outras, é preciso que alguém tome uma atitude.
Tirando o mané com a camisa preta no canto da porta da sala, ninguém protesta quando coloco na roda um disquinho do velho Lou. Desde o Velvet, Lou Reed é um dos poucos que ainda consegue dizer algo capaz de sensibilizar meu, digamos, espírito. Quase todos na sala não dão a mínima, mas, como todos que um dia "deram um passeio pelo lado selvagem" da vida, me sinto confortável escutando esta bosta.
As bebidas esquentam, as mulheres esfriam, a vida arrefece, mas o que todos buscam, na verdade, é a manutenção desta merda de chama. Aqui, com os iguais, quase me sinto reconfortado. Talvez seja o único a fazer esta merda de crítica - o Arnaldo acha toda essa reflexão uma bosta -, mas não me preocupo com o que rolará daqui a, digamos, vinte anos.
Talvez, como tantos outros, sejamos profissionais regrados, casados, pais, contando os dias, as horas, para que toda a merda encerre-se e desapareça. Por enquanto, prefiro ficar apreciando a coisa toda.
Olha só, o Gilberto tá só o bocal. O cigarro continua aceso na mão do idiota e ele está "pelas tabelas". Filho da Puta. Ainda bem que consegui tirar da mão dele antes que ele "atribuísse novas cores à noite". Pelo jeito, não acorda mais: hora de uma experiência.

- tsssssssssssssssssss

Amanhã ele não vai gostar quando vir esta queimadura na coxa, sem falar no buraco que surgiu na calça. Alcool é um negócio muito escroto: o filho da puta nem pestanejou. Agora que devolvi a guimba à mão do sacana, quando ele acordar vai se perguntar que diabos de merda ele fez para ganhar uma nova cicatriz . Talvez, depois disso, ele fique mais atento ao "lado selvagem" e às pessoas que ficam à espreita. Olha o velho Lou de novo. Perfeito.
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Alexandre[10:42]

11 Outubro 2004
Flores
De repente, nenhuma flor. O dia tinha acabado de amanhecer e nenhuma flor aparecera. O fenômeno intrigara a todos no pacato distrito de São Bento dos Queimados, interior do Tocantins. Como os outros, Alberto estranhara, pois, como todos os anos, esperava-se que as flores abrissem suas pétalas para a primavera. Nada feito, as flores não abriram. Passaram os dias, o inverno foi embora, a primavera chegara e nada.
Para Alberto e sua família, a falta de flores significava um período de dificuldades. Para Antonio, filho caçula do florista, por sua vez, a falta de flores era um anúncio: a mudança veio para levar tudo para outro lugar. O movimento das correntes de vento, o calor, a umidade, tudo continuava do mesmo jeito que nos anos anteriores: só não haviam flores.
Com o passar dos dias, com falta das plantas, a economia da cidade passou a esmaecer. Antonio, sempre na barra da calça de Alberto, dizia, como uma espécie de conselheiro: "Pai, vamos embora. Tá diferente. Não é a mesma coisa. Vamo embora. As flores foram para outro lugar".
Ao escutar isso, Alberto ficava irritado e, com as costas da mão, metia a mão na cabeça do menino. Apesar da descrença, Alberto passava a pensar mais sobre as flores. Sem elas, não havia dinheiro, sustento, família, auto-estima, homem. Não havia nada sem as malditas flores. "Tá diferente, pai. Vambora. Elas foram pra outro canto. Vambora", dizia Antonio. Na seqüência do dito, um tapinha.
Passaram-se quinze dias, até que Alberto decidiu: "vou esperar as flores". Bestificada com a decisão do marido, já acreditando nos avisos de Antonio, Joana não sabia mais dizer. Esperar o retorno das flores seria o mesmo que decretar o fim da família. Dois filhos, o marido e nada mais. Passara a amaldiçoar as flores.
Na barra de sua saia, Antonio, antes com um olhar de repreensão direcionado para o pai, passou a olhar para a mãe e disse: "Dona Joana, as coisas mudaram. As flores não voltam mais, a cidade vai murchar e nosso pai com ela. Não fica, não". Joana nunca acreditara nas doidices do filho, mas, ao menos dessa vez, parecia que Antonio tinha razão. Depois de um mês e meio de espera, sem as malditas flores, ela juntou suas coisas e pôs-se em direção à margem do riacho. A ponte a levaria para fora do distrito: aquela cidade murcha ficaria para trás. Alberto ficara. Cabisbaixo, com o olhar vazio, esperava pelas flores que não viriam. Nunca mais.
Dois quilômetros depois da travessia, o pequeno Antonio viu que as flores cresciam às margens da estrada. Na medida em que caminhava, os botões abriam. Sem falar com a mãe, Antonio entendeu que as flores não estavam ofendidas com sua família, mas com a mesquinhez daquela cidade. As flores, como dissera Antonio, não voltariam mais: não até que o último filho de São Bento dos Queimados fosse, em definitivo, experimentar o outro mundo além da ponte. Um mundo em que existia algo além de pequenas e fétidas flores.

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Alexandre[23:08]

10 Outubro 2004
Não, Nada...
É verdade. Nadinha. Nestes últimos dias, por incrível que possa parecer, não tive nenhuma idéia relevante. Nada que valha a pena escrever. Comprei discos, assisti filmes, terminei de ler uns dois livros, mas não tenho nada que considere suficientemente interessante para relatar neste blog.
Por sua vez, não vou demorar em escrever qualquer coisa. Esperem, com o término de algumas coisas que vêm ocupando meus neurônios, voltarei à carga. Tenho algumas histórias guardadas na manga que, no momento certo, se transformarão em alguma coisa.

- Escreve logo, porra...
- Não.
- Por quê?
- Vou escovar os dentes antes...
- Mas, você não precisa escovar nada. É só sentar e digitar alguma coisa, caralho...
- Meu hálito.
- Que que tem?
- Não quero que o monitor fique puto com o meu fétido hálito.
- ...
- Dá pra esperar?
- Vá lá; tudo bem. Não tem jeito mesmo.

Dentro de alguns dias coloco alguma coisa por aqui. Juízo, criaturas.
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Alexandre[14:31]