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30 Setembro 2004
No front, tudo na mais completa calma...
- Nervo-calm, soldado, rápido...
- Senhor, as tropas avançam.
- Deixa vir, soldado.
- Senhor...
- Soldado, enquanto os disparos se mantiverem distantes, estaremos bem.
- Senhor...
- Soldado, Nervo-calm. Pega o "potinho" e me traz agora.
- Mas, senhor...
- Porra, soldado. Não há motivo para preocupação. O exército inimigo está indo para outra direção. Não sabe sequer o motivo da luta. Esnobes sem causa, isso é o que são.
- Senhor, as chamas estão aparecendo no horizonte.
- Sei. Devem estar, cegos, se matando. Deixa pra lá. Não precisamos ouvir os gritos deles.
- Senhor, esta é a nossa oportunidade para atacá-los.
- Por que? Não há motivo. A memória e a história falam por si. O que sempre foi, sempre será. A verdade está conosco; a falta de memória com eles.
- Como assim, senhor?
- Você entenderá, meu caro. O hoje reflete o que ontem foi relevante. Por sua vez, o que sempre foi continuará sendo. Não há porque mudar.
- O senhor está desistindo, senhor?
- Não, de maneira alguma. Por que me preocupar com ataques perdidos? Estando em paz com a memória, nada mais importa. Deixe-os lançar seus petardos às favas: quando tudo isso acabar, estaremos andando entre escombros e rindo a valer.
- Senhor, posso puxar a cadeira?
- Senta aí e pega uma cerveja.
- O senhor não se importa?
- Que nada. Senta aí e vamos apreciar a coisa toda.

O improvável acontece. Enquanto o mundo explode, alguns dos seus ocupantes assistem, de uma posição deveras privilegiada, os estragos. Quem se importa? Ninguém, se o que vale, na realidade, é a promoção do espetáculo. Soldado e comandante apenas observam clarões e colunas de fumaça formando-se no horizonte. De sua cadeira de praia e com uma garrafa na mão, o comandante apenas esboça um sorriso. Um irônico e satisfeito sorriso.
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Alexandre[13:37]

23 Setembro 2004
imbecíllis
Da última vez que vi Armando, por pouco não o mandei tomar no rabo. Não por nada, mas minha tolerância aos desprovidos de "massa cinzenta" anda no limite. Armando, pelo que me lembro, nunca foi uma daquelas companhias que um cristão gostaria de ter por perto. Se nem eles, cristãos, não querem, por que eu teria que conviver com a criatura? Nunca fui de muitos amigos, não é agora, beirando os trinta, que vou mudar minha maneira de lidar com "as criaturas de Deus". Por mim, imbecis como Armando poderiam, em fila, procurar o despenhadeiro mais próximo e dar cabo de suas existências - de preferência, até a 17ª geração.
O que mais gosto nas pessoas, na realidade, é aquela capacidade que poucos têm de não dar a mínima para os outros; de encarar a sua existência como algo transitório que nunca dependeu nem dependerá da boa vontade de algum filho da puta. Por que devo ser, digamos, benevolente, amável, gentil e sincero, se a maioria da humanidade não pratica esta máxima? Tenho, como way of life, a idéia de que essa coisa de "dar a outra face", "amar o próximo" e todo esse blá-blá-blá pós-crucificação é conversa pra boi dormir.
As vezes penso que Armando gosta deste tratamento "peculiar" que adoto; acredito que ele gosta de ser execrado: perdi a conta de quantas vezes chamei ele, com a entonação necessária para tanto, de imbecil. Em meu cérebro pulula a vontade de dizer: "Armando, você é um imbecil. I-M-B-E-C-I-L, ouviu bem?". No entanto, apesar disso estar bastante evidenciado nos meus ato, parece que ele sofre de alguma tendência sado-masoquista que desconheço.
Um dia, quando chegava em casa depois de umas 12 horas de trabalho - sou biólogo - ele apareceu com uma amiga. Não demorou muito para o desconforto despontar na cara redonda da amiguinha. Ele a trouxe para que pudesse conhecer seu "inestimável e admirável amigo"; aquele que "lhe ensinara tantas coisas importantes sobre a existência e com quem adorava conversar". Segundo ele, eu, Abraão, seria um amor de pessoa.
Pobre criatura. Depois de alguns minutos, a "amiga" dele literalmente implorava para ir embora. Os deixava sozinhos na sala; tratava-o como se, da existência dele, dependesse a existência da minha carteira de cigarros. A mocinha até que sabia das coisas: não demorou muito para que ela percebesse que, mais que qualquer outra coisa, ela, Armando e boa parte das pessoas deste e do outro hemisfério seriam, para mim, admirável e completamente descartáveis.
- Vocês vão agora?
- Não sei... Talvez. Disse Armando.
- Vão, não agüento mais às suas caras em meu sofá. Tenho coisas mais interessantes a fazer: dar continuidade à minha disputa pessoal de Paciência. Claro, se vocês me derem licença.
- Você não sabe ser gentil, não? - Perguntou a mocinha.
- Pra falar bem a verdade, não me convém. Estou em casa e vocês não: sou aquilo que quiser. Na verdade, independente de onde esteja, sempre me convém ser quem sou. O que sou ou deixo de ser, não interessa a vocês; a ausência de vocês, sim, me interessa.
- Como é? - Protestou a mocinha.
- Espera... - Rápido, Armando saiu de seu canto.
- Surda? Ausência. Não ter vocês por perto, é uma boa. Sabe como é: os inúteis e o lixo devem ser mantidos à distância. Não digo inúteis em um critério laboral, mas, sim, intelectual. De vazio, bastam meus bolsos.
Ainda consegui ouvi-la protestando e descendo a escada - uma maravilha de se ouvir. Armando, bem, é outra história: o coitado continua a vir. Impressionante como algumas pessoas teimam em se enganar e acham que os mais ásperos são afeitos à benevolência. Realmente, incompreensível.

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Alexandre[09:31]

14 Setembro 2004
Time to Relax
Emocore: A Praga.

Antes de continuar com os exercícios non-sense que venho promovendo, decidi abordar um tema muito relevante em dias atuais: para onde diabos está indo a nossa música. Lembro que minha iniciação musical não foi lá das melhores: axé, para ser mais preciso. Ao contrário de muitos por aí, não nego que tive - em um determinado e claro momento de minha vida - certa simpatia pelo estilo. Bom, isso durou até que completasse 14 anos. A partir daí um Admirável Mundo Novo fez questão de chutar meu rosto: Rock'n'Roll is here to stay.
Pois bem, tinha pouco mais de quinze anos quando adotei o Rock'n'Roll como trilha sonora dos meus dias: Faith No More, Guns'n'Roses, Metallica, R.E.M., Nirvana, Radiohead e por aí vai. Todos hierarquizados em ordem de surgimento e importância, devidamente relacionado com suas respectivas fontes. O que mais me chamava a atenção era o contágio que fulminava estes grupos, interrelacionando-os. Uma teia de boa música, costumo afirmar, chamava minha atenção cada vez mais.
Tudo isso, na realidade, serve como prévia para avaliar o que temos em dias atuais: nada. Parece que, após 1994, salvo algumas raras exceções, nada de realmente relevante surgiu. O que me entristece é saber que vivenciamos uma praga institucionalizada como a pior das Boy Bands: EMO. Acredito que pior que o Metal Melódico, o Emocore consegue destroçar qualquer esperança na música das novas gerações. Li uma crítica do colega Hugo Montarroyos, do Recife Rock, e concordo em gênero, número e grau: prefiro ouvir o que de mais podreira pode existir em relação ao brega que perder alguns segundos de minha existência ouvindo emo, Pop Rock ou qualquer outra porcaria do gênero.
O que mais me chama a atenção no gênero, assim como em muito do que vem sendo feito em dias atuais, é a capacidade que os geniais representantes do gênero têm de compor canções com a profundidade e complexidade de um poça d'água na Avenida Rio Branco. O que mais me impressiona é a forma como esta praga influencia as novas gerações com um discurso piegas capaz de levar ao asco medalhões como Odair José, Wando e José Augusto - para citar a Santa Trindade do Brega.
Nada mais. Faça sua parte: lance ao lixo aquele disquinho vagabundo de emocore ou pop rock que você tem em casa. Tome uma atitude: vai escutar os Beatles ou Stones, porra.
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Alexandre[09:21]

04 Setembro 2004
Tecladinho
Tomo II - Descendo o Pano

Acredite: duas horas de espera em uma praça de alimentação é uma tortura. Um sofrimento ainda maior quando, ao esperarmos, temos que agüentar aquele tecladinho terrível. Lembro de ter marcado com Saló às 19h. Não sei porque cargas d?água ela está demorando. Creio que esta é a quinta ou sexta música de Caetano Veloso que escuto somente nesta semana. Na verdade, não sou muito fã de música popular brasileira: considero um gênero chato, e mais chatos ainda aqueles que vestem sua camisa. Esta é uma outra história.
Às vezes me pergunto o que diabos passa pela cabeça destes carinhas que ficam ali, sentados, dedos nas teclas, mandando esta musiquinha insuportável. Shopping-centers, supermercados, colações de grau e outros locais tornaram-se território dessa fauna. Estou entornando meu quarto chopp e Saló não chega. Engraçado este apelido: Salomé nunca gostou. Uma homenagem minha para ela e para Pasolini.
Nunca assisti o filme, mas ouvi tantos horrores ? no bom sentido ? sobre o filme que decidi presenteá-la com o nome. Saló ou os 120 Dias de Sodoma e Gomorra, título sensacional, não é verdade? Vi em uma livraria perto do shopping uma edição desse livro: Sade. Um dos meus autores preferidos, mesmo não sendo nenhum libertino.
Conheci Saló quando ingressei no curso de Comunicação. Uma pátria de idiotas com algumas províncias em plena revolta: uma definição geográfica resolve a parada. Dei sorte: ela era uma das poucas que se salvavam. Exceção feita a alguns poucos insanos, o restante daqueles que conheci naquelas salas da universidade nada tinham a oferecer. Mentes descartáveis em um ambiente equivalente.
Ela sempre me fascinou: linda, leve e lésbica. Claro, genial e feminina como nenhuma outra. Somos bons amigos desde aquela época ? daí, conte dez bons anos. Combinamos em praticamente tudo: discos, livros, acessos de fúria e veneno contra os tolos.
- Porra, como demora...
Outro dia decidimos fazer uma pequena lista: os amigos-úteis. Isso: selecionaríamos aqueles que, bem ou mal, mereciam algum tipo de atenção. Pode parecer esquisito, mas quando chegamos à versão 3.0 de nossa existência, não dá pra ficar aturando a humanidade de forma tão, digamos, tolerante. Então, porque não selecionar aquelas pessoas, lugares e coisas capazes de satisfazer-nos. Foi aí que tivemos a idéia da lista: até agora, temos 2.371 itens. Nossa expectativa, até os 50 é chegamos a 100.000 itens. Vamos ver.
- Finalmente.
Ela acaba de chegar com seus coturnos coloridos, aquele piercing que mais parece uma argola de elefante e sua bolsa arrastando abaixo do joelho. Finalmente vou me livrar deste tecladista imundo.
- E então?
- Então? Então, nada...
- Como assim?
- Nada. Não tô grávida.
- Como, não?
- Não tô, oras...
- Legal. Vamos sair daqui? Não agüento mais esse lugar.
- Vamos. Pra comemorar comprei um ácido pra nós dois.
- Ácido? Massa. Comprei aquele disco do Jethro Tull.
- Sério? Vamos: a noite promete.
- Ainda quer ser mãe?
- Quero... Depois a gente tenta de novo.
- Tudo bem. Se você insiste, o que há pra ser feito?
- Para de merda e vamos nessa.

A vida é assim: desce o pano, começa outra história e bola pra frente. Para os demais, sempre tem o tecladinho no shopping-center. Paciência.

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Alexandre[01:48]