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| 31 Agosto 2004 |
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| Tecladinho |
Tomo I - Vida de MerdaNão faz muito tempo que escolhi essa "grata" profissão. Nunca acreditei nesse lance de destino, mas, se esta merda existir realmente (e com ela algum Deus metido a besta), vou ficar muito puto quando morrer e descobrir que tudo estava "escrito". Não sei porque cargas d'água escolhi a música como profissão. Algo como "quero levar alegria às pessoas" e toda aquela porcaria idealista que pontua o início daquela reta horrível que chamamos de vida, resultou nisso: tecladista de shopping-center. Nunca imaginei, quando entrei no curso de música, que um dia me submeteria a isso. Fico aqui plantado, quatro horas diárias, tocando músicas que detesto; cantando canções estúpidas para pessoas que não dão a mínima para o que diabos estou fazendo. Algumas vezes penso ser parte de uma ladainha interminável que nina uma geração descerebrada. Chopin, Tchaikovsky, Brahms, Mozart e tantos outros, desceram vaso abaixo. Todo o conhecimento, todas as peças que escutei - partituras e particularidades de cada obra -, não serviram para absolutamente nada. Diariamente venho, subo neste palco, armo o meu velho tecladinho vagabundo e toco um arremedo musical de quinta para estes "entusiastas" da boa música. Bando de hipócritas. Na verdade - apesar de após alguns anos aparentar isso -, não me considero uma pessoa azeda. Não por ser naturalmente desta maneira, mas por entender que os inúteis que me cercam diariamente não dão "lhufas" para o que sou; para meus sonhos e anseios; sequer prestam atenção à música - mesmo ela sendo um lixo. Já pensei, logo quando comecei com isto, em promover performances; propor um repertório mais elaborado; tocar músicas requintadas e experimentais - vanguardistas, até - para pessoas que, exigentes, queriam maior classe. PORRA NENHUMA! Estes imbecis merecem o lixo que trago, engulo e vomito diariamente: esta porcaria "pop, metida, intelectualóide e assobiável". Ao lixo com o lixo: não se deve oferecer um manjar aos idiotas movidos por "rango". Há muito trago um sonho comigo: o dia em que terei uma platéia à minha disposição; o dia em que obrigaria estes idiotas a engolir cada risinho; cada gesto áspero de desdém; cada uma das "musiquinhas" imbecis pedidas em bilhetinhos visando agradar a companhia igualmente imbecil que costumam trazer. Gostaria, sim, de torturá-los; um pouquinho disso e eles escutariam o meu repertório sonhado. Espero, sim, por este dia. O Dia da Vingança. Um dia musical, sim, mas um dia de plena desforra. O dia em que os tecladistas de shopping, como eu, haveriam de comemorar. O dia em que patricinhas e mauricinhos seriam obrigados a escutar muito mais que Caetano, Gil e outras porcarias pseudo-intelectuais. "Ou escutam ou BOOOM!", diria - já que estaria, como dizem, "de cima". Que momento magnífico. - Sebastião, porra... - Sim, senhor gerente. - Liga logo a porra desse teclado, caralho... - Sim, senhor gerente. - Tá pensando o quê? Você é pago para tocar essa bosta... Muito bem pago, por sinal. - Sim, senhor gerente. - Vamo logo com isso, caralho. Os clientes já estão chegando à praça de alimentação. Desça logo e toque essa joça. - Sim, senhor gerente. Claro que vou deixar o melhor pro seu Agenor: marcar o tempo de cada compasso com meu pé enfiado na cara desse filho da puta. Queria somente poder fazer com que ele e outros funcionários desta porcaria de shopping pagassem um pouquinho do que têm me feito semanalmente. Só um pouquinho... - Boa noite. " As vezes no silêncio da noite; eu fico imaginando nós dois; Eu fico aqui sonhando acordado...". Caetano...que merda de vida. |
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| Alexandre[10:10]
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| 26 Agosto 2004 |
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| Cusparada |
"..but don't forget the songs that made you smile and the songs that made you cry". Sempre gostei de escutar boas canções com o volume batendo a estratosfera. Costumo dizer que faço isso para esquecer do mundo. Costumo subir neste terraço todas as sextas-feiras: é engraçado como tudo fica mais claro daqui do alto. A cidade, seus prédios... até o rio Potengi parece menos sujo daqui do alto. Vale salientar que o 21 de Março não é lá "nossa como é alto". Um edifício antigo, mas com uma vista maravilhosa. Dá pra ver os loucos de pedra (literalmente), queimando a vida naquelas latinhas. Já queimei muito minha vida, perdendo muito tempo, e hoje prefiro tocá-la pra frente. Às vezes me pergunto porque toda a manhã passo alguns minutos aqui, no telhado, olhando esta merda de cidade. Parece que não tenho - quando na realidade tenho - nada melhor pra fazer. Vai ver gosto do flerte com o suicídio ou com a desocupação completa. Quantas vezes me senti tentado a planar daqui de cima até lá embaixo? Muitas, sem dúvida. Na verdade, penso, o que me atraia não era simplesmente o salto, a queda ou o choque lá na calçada: gosto de imaginar o ar de espanto que provocaria em todos. O quarteirão sentiria um ar de alegria, na realidade. - Ele pulou! Sempre achei que era meio louco. Talvez dissesse o velho Antonio, flanelinha que diariamente reclama quando estaciono o meu Fusca 78 em uma de suas contadas vagas. Aquela velhinha que vende milho - que , tenho certeza, não vai com a minha cara - gargalharia loucamente com a desgraça (aquela sacana de merda). Seu Alcindo certamente ficaria puto ao me ver. Muito puto, por sinal: tenho um "prego" no boteco dele que já bate a casa dos noventa reais. Só as cachaças que tomo antes de trabalhar rendem um bocado pro velho. Certamente não posso esquecer das canções que me fazem chorar, mas aquelas que me fazem rir continuam sendo as melhores. Por isso, um brinde. Um movimento, para não perder o hábito. Como estou inspirado, vou tentar acertar o barraco daquela velha sacana com uma boa cusparada. Certamente, ela merece. Que vagabunda! Tome na testa, vaca. Cheers! |
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| Alexandre[13:33]
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| 22 Agosto 2004 |
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| Batismo |
Josias sempre teve predileção pelos dias de chuva. Desde pequeno, quando as primeiras gotas desciam as telhas de sua casa em Felipe Camarão, sempre perdia alguns minutos - segundos, até -, parando o que quer que estivesse fazendo para olhar o que considerava uma beleza: aquelas gotas de chuva que rebatiam e escorriam do telhado ao chão. O ânimo dele, segundo afirmava aos amigos, melhorava muito naquele clima. Parecia que Deus lavava sua face com aquelas gotas que caiam. Catador de lixo da Urbana - a companhia de limpeza de Natal -, no trabalho gostava quando a chuva começava a cair e acariciava seu rosto. Mesmo pendurado no varão do caminhão de coleta e fustigado por aquele odor que mais parecia saído de uma sucursal do inferno, tudo parecia uma maravilha. O trabalho ficava menos sofrido naqueles dias, comentava. Apesar de todas as dificuldades decorrentes de seu ofício, ele sentia-se abençoado por aquele pequeno momento de "ternura". Por mais estranho que possa parecer, a chuva também estava lá quando terminara de espancar até a morte sua esposa. Ela o enganara com um colega - bem mais jovem que ele, diga-se - também catador. Casados há mais de 12 anos, Josias não suportara a angústia de ter perdido sua mulher para um "garotinho". - Doze anos e é isso que ganho? De maneira alguma. Dissera ao policial enquanto era conduzido ao camburão que estava parado em frente à sua casa. Os dois filhos, Rafael e Antonio, não entendiam o que acontecia, tendo somente tempo de ver seu pai parando por alguns segundos antes de entrar na viatura. Josias levantara os olhos em direção ao céu: as primeiras gotas de chuva começavam a cair e talvez aquela fosse sua última chance de sentir aquele toque em seu rosto. Um toque divino que, ao menos naquele momento, não lhe traria redenção. Um batismo sem ódio, poderia se dizer. |
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| Alexandre[15:45]
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| 20 Agosto 2004 |
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| Corre pro Mosh |
Cansado da MTV e seus VJs beirando a completa demência? Com saudades daquelas publicações que diziam o que realmente importava no mundo da música? Pois bem, claro que não é muito, mas a Revista Mosh surge, em seu primeiro número, como uma boa alternativa a babaquice que impera quando o assunto é música. Gráfica e jornalisticamente impecável, a revista consegue resgatar, com matérias bem sacadas, aquele saudoso ranço deixado pela extinta Bizz (ShowBizz, o caralho!). De cara, a primeira edição traz a lista dos 50 Piores Discos do Rock e do Pop - bem interessante, por sinal. Uma extensa matéria sobre os Pixies e outra sobre a nova piração do Dave Grohl. Como o mote da Mosh é "Atitude, Informação & Muita Música", a revista traz também uma matéria sobre o gênio louco Paulo Leminski. No entanto, o grand finale fica a cargo das resenhas. A equipe, adotando o jogo das estrelinhas, alça à estratosfera ou lança no Hades alguns discos. Vale conferir. |
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| Alexandre[17:33]
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| 16 Agosto 2004 |
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| Só os idiotas precisam de conselho... |
Representatividade. Acho que toda esta discussão em torno do Conselho Nacional de Jornalismo - balela petista que flerta com o mais imbecil exercício totalitário - é muito bem ilustrada por esta palavra. Na verdade, em dias atuais, os jornalistas enfrentam a pior crise de representatividade de sua história. Como podemos ser representados por profissionais que, salvo alguma experiência, não trabalham nas redações? Não sabem o que diabos os jornalistas precisam? A saber, odeio o termo jornalista: uma vala comum pode-se jogar profissionais de redação dos periódicos em geral e os demais ligados a assessoria de imprensa e atividades afins. Nada contra estes últimos, mas creio que um sindicato calcado em profissionais destas duas não terá compreender os problemas vigentes nas redações - que, diga-se, são muitos. Particularmente acho que a proposta de um Conselho de Jornalismo serve, única e exclusivamente, a um grupo de profissionais afeitos ao poder - próximos aos membros do legislativo ou executivo em todas as suas esferas. Não me cabe a idéia de que um repórter, editor, chefe de reportagem, secretário ou diretor de redação esteja interessado em ter um conselho que, nos seus calcanhares, ficará a patrulhar tudo o que diabos for feito em uma redação. Na minha opinião, a Constituição e a Lei de Imprensa são ferramentas suficientes para corrigir e punir os abusos cometidos pelos maus profissionais. Não bastasse isto, o próprio mercado trata de sepultar aqueles menos afeitos à praxis jornalística. Não sou eu que argumento em prol desta idéia: todos os profissionais que conheço mostram-se como seus partidários. O Conselho Nacional de Jornalismo terá a mesma importância que uma Ordem dos Músicos: cabide de empregos para alguns poucos imbecis afeitos à bajulação do poder constituído e porvir. Os interessados na criação do Conselho deveriam trabalhar em algo mais construtivo e fazer funcionar pra valer os sindicatos, fazendo-os retornar a sua principal atribuição: lutar pela defesa dos interesses da classe que representam. Acho que esta não é uma discussão que precisa ser amadurecida. Lembro que na terça-feira assisti o Observatório da Imprensa e nele um dos entrevistados falou algo importante: existe uma nova Lei de Imprensa no Congresso Nacional que aguarda a devida discussão. O governo deveria, sim, esquecer esta balela de Conselho e cobrar a votação da lei. As vezes o governo precisa abrir os olhos. |
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| Alexandre[09:43]
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